Um olhar para a realidade do comportamento brasileiro nos dá a conotação clara da falta de metas e de planejamento pessoal, seja no meio empresarial, ou no âmbito da estrutura familiar, o fato é que temos uma enorme dificuldade de estabelecer referenciais a serem buscados no futuro.
Metas são referenciais que podem ou não atender às dimensões internas do indivíduo e que desencadeiam uma série de comportamentos orientados para a realização das mesmas de diversas intensidades em função da natureza desta raiz internalizada.
O planejamento é o meio que o indivíduo encontra para conviver no presente com pequenas doses de realização do fato almejado no futuro ou com pequenas doses de frustração pela não conclusão eminente. Em síntese, é o caminho a ser percorrido que o aproxima ou o afasta do motivo para a própria ação.
Sendo a meta um mobilizador do comportamento, em diferentes intensidades, quais seriam os fatores que estariam relacionados ao não estabelecimento de metas uma vez que elas têm esse poder de canalizar nossas energias?
A falta de hábito pode interferir na capacidade de estabelecimento de metas, fatores socialmente aprendidos que estão relacionados com a cultura do brasileiro nos fazem crer que o futuro é composto de incertezas e que visualizar um futuro desejado é uma porta para a frustração.
Outro componente da nossa cultura que influencia a sociedade é o medo da inveja, tão detalhadamente explicada por Melanie Klein. A inveja que acompanha a constituição do sujeito, quando despertada, pode ser alvo de muito receio por parte de quem mostra aos demais suas incapacidades. Realizar e atingir metas muitas vezes é ser alvo de muita inveja, causando o medo do sucesso e a auto-sabotagem.
Se o medo do sucesso pode nos afetar, o que dizer então do medo do fracasso?
A quais experiências na vida de frustração e de impotência o fracasso pode nos remeter?
Desde o nascimento, talvez a maior e mais dura lição seja lidar com a frustração pela perda da onipotência. Aquele ser que era o centro do universo, que com um mínimo gesto de insatisfação lhe bastava um choro para que a perfeição lhe fosse apresentada na figura materna, ao crescer e se desenvolver é obrigado a aprender a perder a sua majestade.
O quanto ainda no ímpeto de resgatar uma imagem idealizada e internalizada de poder diante do outro e de si mesmo pode afetar a capacidade de se lançar desafios que trazem a possibilidade do confronto com a auto-imagem?
Diante dos medos e da falta de hábito inseridos em um cenário desfavorável a mudanças que é a nossa sociedade, só nos resta ancorar nosso processo de mudança focado em metas, no desejo.
Ficamos reféns de uma força interna que seja capaz de enfrentar as mais diversas barreiras, sejam internas ou externas, aprendidas socialmente. Reféns, pois quem detém o controle é o desejo, que inadvertidamente faz suas escolhas e nos coloca as mais diversas situações das quais muitas vezes nos vemos a mercê.
Um desejo que se distancia do querer à medida que este fora determinantemente castrado desde dos mais insignificantes aos mais superiores. Quem não se viu obrigado a aceitar um suco horrível, ou teve sua vontade de brincar cerceada pelo dever dos estudos, ou ainda concordava em dizer que estava com saudades daquele parente distante mesmo sem se lembrar ao menos do nome?
Onde está o verdadeiro querer se na maioria das escolhas alguém já as fez?
Escolher e optar por algo está cada vez mais difícil, cada vez menos há uma oferta de opções.
Desejar o seu próprio destino torna-se por si só um exercício de coragem, de ser senhor de seu próprio desejo e não mais objeto do mesmo, correndo assim o risco de não ser exatamente quem gostaria de ser, mas com a vantagem única de ser quem realmente se é.
Celso Garcia
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